Nem mesmo a desaceleração brusca da economia norte-americana no ano passado conteve a euforia dos investidores com a nova redução dos juros pelo Federal Reserve (Fed - banco central dos Estados Unidos).
Durante todo o dia, o mercado financeiro não apresentou fortes oscilações na expectativa de diminuição de 0,5 ponto percentual dos juros, o que foi confirmado no final da tarde. Para evitar que a economia norte-americana entre em recessão, a taxa caiu de 3,5% para 3% ao ano.
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) reagiu de forma instantânea e fechou com uma alta de 1,28% aos 60.289 pontos. O volume financeiro totalizou R$ 5,140 bilhões. A cotação do dólar seguiu caminho inverso e encerrou o pregão com uma ligeira queda de 0,06%. A moeda norte-americana foi vendida por R$ 1,78.
Para o Fed, presidido por Ben Bernanke, a queda dos juros foi necessária pois permanece o risco de desaceleração da economia dos EUA. “Os mercados financeiros mantêm-se sujeitos a tensões consideráveis, e o crédito continua limitado para algumas famílias e algumas empresas”, diz a nota. “A decisão monetária de hoje (quarta-feira), somada às adotadas antes, deve ajudar a promover um crescimento moderado a tempo e mitigar os riscos sobre a atividade econômica.” Na semana passada, o Fed havia feito um corte, em reunião extraordinária, de 0,75 ponto percentual, de 4,25% para 3,5%.
O temor do BC americano de um desaquecimento maior na economia foi fortalecido com a divulgação pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos do Produto Interno Bruto (PIB) local - soma de todas as riquezas do país -, que registrou aumento de apenas 0,6% no último trimestre de 2007 - praticamente a metade do que projetava o mercado.
Em 2007, a expansão foi de 2,2%, a menor desde 2002. O presidente da IP Desenvolvimento Empresarial e Institucional, Ingo Plöger, destaca que a redução dos juros e o pacote de medidas no valor de US$ 150 bilhões - que aguarda aprovação pelo Congresso americano - serão um analgésico contra o aprofundamento da crise norte-americana impulsionada pelo calotes de empréstimos imobiliário de alto risco (subprime).
“A medida vai amenizar os impactos negativos mas não vai resolver o problema. A taxa de juros mais baixa dá fôlego para repactuação de dívidas”, explica.
Na avaliação do economista da Modal Asset Management, Ivo Chermont, o Senado não deve demorar para aprovar o pacote da Casa Branca porque ninguém quer arcar com o ônus, em um ano eleitoral, do alastramento da crise. “As medidas, em um ano eleitoral, ajudarão o Fed a combater a recessão”, diz Chermont. O economista da Antônio Carlos Rocca, da RiskOffice Consultoria, reforça que as medidas de incentivo do governo, assim como a redução de juros, trazem alívio para a economia americana mas os efeitos serão sentidos apenas no segundo semestre.
“Há dificuldades para reverter o processo de desaceleração mais forte no curto prazo”, conta Rocca. “A economia americana está travada pelo sistema de crédito”, acrescenta. Nesse cenário incerto, os bancos ficam mais receosos para emprestar e os americanos controlam o ímpeto consumista.
Bolsas no mundo
As principais bolsas européias fecharam em queda por conta de baixas de mais de US$ 36 bilhões em encargos e perdas ligadas ao mercado de subprime americano. Somente o banco suíço UBS anunciou prejuízo de US$ 4 bilhões em 2007. Além disso, relatório da Goldman Sachs mostrou que as vendas do setor automotivo vão cair.
Como o fechamento dos pregões foi anterior ao anúncio dos juros pelo Fed, as bolsas apresentaram queda: Londres (-0,8%), Paris (-1,4%), Frankfurt (-0,3%), Madrid (-0,2%) e Lisboa (-1,1%). Nos Estados Unidos, após operarem em alta com o anúncio da redução dos juros, Dow Jones registrou queda de 0,30% e a Nasdaq recuou de 0,38%.
Edna Simão
Correio Braziliense
EUA baixam juros de novo