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Sobre a natureza da economia de mercado

Publicado em 11/09/2011

Há poucos meses, os exportadores brasileiros tomavam financiamentos em dólar (adiantamentos de contrato de câmbio) e vendiam a moeda americana para abiscoitar os juros em reais e a valorização da moeda nativa. O longo período de bonança na economia global favoreceu, entre outras coisas, a valorização do real, com auxílio inestimável do hiato generoso entre juros domésticos e externos.

Tudo isso açulou o ânimo de bancos criativos e exportadores, estranhamente satisfeitos com o real valorizado. Entusiasmados com os efeitos do euforizante que inalavam, os empresários foram além e “alavancaram” posições vendidas na moeda americana. Para tanto, as empresas se valeram de operações com derivativos de balcão, contratadas com os bancos, estrangeiros em sua maioria. Passaram do hedge à especulação. Na onda do efeito-demonstração, seguiram acompanhadas na empreitada por outras empresas não exportadoras.

Os resultados foram compensadores por algum tempo. Mas a brutal inversão de tendência no movimento do câmbio impôs prejuízos alentados às empresas que apostavam na valorização do real. A partir de então, os ganhadores de ontem tornaram-se os perdedores de hoje. Muitos ainda não zeraram a posição, mas todos passaram a demandar desesperadamente a moeda americana, acentuando a escalada do dólar. A esta altura do campeonato, as empresas estão amargando em seu caixa (e provavelmente em seus resultados) as conseqüências do risco de preço em que incorreram, enquanto os bancos estão ameaçados de descumprimento dos contratos por parte das contrapartes. Percalços da especulação.

É oportuno esclarecer que a palavra “especulação” utilizada acima exprime tão-somente o modo de ser, a natureza, da economia de mercado, também conhecida como capitalismo. Nela as “especulações” a respeito da evolução das condições do crédito e dos valores monetários dos ativos são constitutivas das decisões dos possuidores de riqueza. Quem produz e exporta salsichas não o faz para suprir as necessidades dos consumidores, senão para acumular riqueza monetária.

Na economia da especulação, não há “estabilização do câmbio” em torno de um valor fundamental, como pretendem as teorias que sustentam os regimes de câmbio flutuante. Tais hipóteses estariam bem, talvez, se aplicadas a um mundo em que a taxa de câmbio real exprime os preços relativos entre os bens produzidos domesticamente e aqueles de produção forânea. Fosse este o caso, o câmbio se moveria em razão da posição da balança em transações correntes, ou seja, reagiria aos déficits ou superávits na conta que registra as exportações e importações de mercadorias e serviços.

As supracitadas teorias funcionam mal, muito mal, quando as economias estão abertas aos movimentos de capitais e sujeitas à formação de posições especulativas em mercados futuros. Em tais circunstâncias, a taxa de câmbio reflete a demanda e oferta das moedas enquanto ativos financeiros. Sempre pró-cíclicas e causadoras de exageros, as antecipações sobre as variações de preços provocam bruscos ajustamentos entre a moeda nacional e a moeda internacional de referência, sem proporção com os resultados do comércio.

A coisa fica ainda pior quando esses movimentos ocorrem em períodos de turbulência financeira. Não é tão difícil entender que, a despeito da grave crise que afeta as instituições financeiras dos Estados Unidos, o prêmio de liquidez implícito na posse da moeda americana é, nos momentos de desconfiança e medo, a prenda mais cobiçada nos mercados globais. Por isso, a despeito de flutuante, o câmbio brasileiro apresenta hoje distúrbios próprios de um regime de câmbio fixo em tempos de ataque especulativo.

A escalada de valorização do dólar confirma a percepção de muitos: os Treasury Bills são os ativos de última instância do sistema monetário global, ainda sob o comando do Estado Nacional americano. Veja o leitor: os rendimentos dos títulos despencam, mas a elevada probabilidade de deflação universal torna vantajoso (e racional) ficar nos títulos seguros e líquidos de Tio Sam. A economia mundial navega, sim, nas águas da liquidez e de suas armadilhas.

Os sinais são inequívocos. Na terça-feira 7 de outubro, o Fed decidiu intervir nos mercados de curto prazo – liberou 460 bilhões de dólares para a compra de commercial papers. As transações nesses mercados estão praticamente paralisadas, enquanto os felizardos detentores de liquidez – sejam eles bancos, empresas ou famílias – tratam de se refugiar nos ativos sem risco.

O pânico dos investidores rapou os fundos de renda fixa com resgate mediante pré-aviso e os bancos de depósito congelaram o crédito para todos os mercados. Os commercial papers são títulos de curto prazo emitidos pelas empresas para o financiamento de capital de giro ou pelas instituições financeiras não bancárias (não depositárias) para financiar posições em ativos mais longos, como, por exemplo, os CDOs, derivativos de crédito lastreados em empréstimos hipotecários.

O desmoronamento da pirâmide invertida de ativos – a desalavancagem, a busca desaçaimada por ativos mais líquidos – começa a afetar os fundamentos que lhe deram origem, ou seja, a capacidade do sistema de crédito de criar depósitos por meio de empréstimos, provendo liquidez e meios de pagamento à economia. Se essa engrenagem não funciona, a economia monetária é incapaz de dar apoio às decisões de produção das empresas e, portanto, de gerar emprego e renda para a comunidade.

O economista Willem Buiter sugere providências para normalizar o mercado de crédito. As sugestões são de exclusiva responsabilidade do seu autor.

1) Nacionalizar os bancos. Único proprietário, o governo tem poder para induzir os bancos a emprestarem uns aos outros. Problema resolvido. Para quem não se sente preparado para tais medidas, aí vai mais uma.

2) O Banco Central se interpõe como contraparte universal nas transações interbancárias. Isso já acontece nas operações de overnight na Inglaterra e na área do euro. Em vez de o banco A emprestar para o banco B e vice-versa, o Banco Central toma emprestado do banco A e repassa para o banco B. Isso exige que o Banco Central determine a taxa interbancária para todos os prazos em que vá operar como contraparte universal.


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