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A demanda por boas notícias suplantará a oferta disponível?

Publicado em 11/09/2011

Depois de um ano de choques financeiros e de prejuízo econômico acentuado, 2009 deverá ser um ano extremamente difícil para economia mundial: investidores, líderes de empresas e gestores de políticas se empenharão em identificar sinais de recuperação, conforme explicam os professores da Wharton e especialistas de universidades do mundo todo.

“Tudo é muito negativo”, diz Franklin Allen, professor de finanças da Wharton. “A economia está em ritmo de recessão e, na minha opinião, ela deverá ser profunda e duradoura. Não parece haver sinal algum de luz no horizonte.”

Na esteira da derrocada dos mercados de ações, da grande quantidade de dívidas podres e do desemprego crescente, os gestores de políticas se esforçam para formular estratégias que restaurem a estabilidade e lancem os fundamentos do novo crescimento. “Não há país no mundo que esteja bem”, prossegue Allen. “Todos estão em situação difícil, com dívidas enormes e a caminho da deflação”, para não falar do “desemprego e da rapidez com que as empresas estão demitindo seus funcionários”.

Boa parte da Europa passará por dificuldades

Allen ressalta que a Europa está atravessando uma recessão profunda, especialmente no Reino Unido. A Alemanha, Espanha e Irlanda foram também atingidas de maneira severa recentemente, embora a França esteja suportando um pouco melhor a situação,uma vez que o grande envolvimento do Estado na economia atua com uma espécie de barreira contra a recessão, protegendo o cidadão. A Itália, apesar de problemas estruturais econômicos antigos, também está se saindo relativamente bem no momento em razão do seu menor endividamento, segundo Allen.

Allen assinala que a Europa deverá atravessar um período de deflação, porém manterá as taxas de juros em 1,5% ou 2%. A Europa será mais conservadora e manterá as taxas mais elevadas, ao passo que o Reino Unido ousará mais, podendo deixar as taxas caírem para 0% ou 0,25%. As taxas mais baixas têm vantagens e desvantagens, explica o professor. Embora ajudem a minimizar o impacto da recessão, podem retardar a recuperação da economia.

O ano novo será difícil para a Europa, em parte porque a recessão no continente começou com um atraso de seis meses em relação aos EUA, observa Mauro Guillén, diretor do Instituto de Gestão & Estudos Internacionais Joseph H. Lauder [Joseph H. Lauder Institute of Management & International Studies] da Wharton. Guillén acrescenta que as economias européias são menos flexíveis do que a economia americana e levarão mais tempo para se ajustar à mudança do cenário econômico, prolongando a recessão. “A perspectiva para 2009 na Europa não é boa. Será um ano difícil.”

A crise econômica mundial ameaça também paralisar o crescimento promissor do leste europeu. “Nos últimos dez anos, os países do leste tentaram fazer a transição para a economia de mercado, mas se viram diante de sistemas financeiros instáveis”, diz Guillén. “Agora, terão tempos muito difíceis pela frente.”

Embora a transição reduza o ritmo de crescimento, Guillén não acredita que os governos desses mercados emergentes resvalem para o protecionismo ou combatam outras características de livre mercado em suas economias, ainda que possam adiar outras reformas. “Os países que se tornaram membros da União Européia entendem agora como isso é importante para eles, e não farão nada que coloque em risco sua posição”, diz Guillén.

Enquanto isso, a Rússia atravessa um período de forte queda nos preços do petróleo, o que constitui um fator de importância fundamental para o desempenho da economia européia em 2009.

Guillén observa que o setor manufatureiro russo não é competitivo globalmente, o que levou o país a se tornar muito dependente de commodities, cujos valores flutuam enormemente. Apesar de uma população com bom nível de instrução, com capacidades elevadas nos segmentos de engenharia e de ciências, a explosão das commodities russas fez com que os investimentos migrassem para outros setores da economia, corroendo a competitividade global do país.

A América Latina resiste

No mundo todo, os mercados emergentes da América Latina, Índia e China continuam a crescer, porém a taxas menores, pondo a nu alguns problemas dessas economias.

A América Latina, que normalmente é atingida pelas crises financeiras globais, conseguiu resistir bem desta vez. De acordo com Juan Carlos Martínez Lázaro, professor da Escola de Negócios IE, a região terminou 2008 com uma taxa de crescimento de mais de 4%. O desempenho da primeira parte do ano foi excelente em razão dos preços recordes das matérias-primas, compensando as quedas acentuadas do segundo semestre do ano.

Contudo, 2009 será um ano difícil para a região, que não conseguirá escapar totalmente dos problemas econômicos mundiais, observa Martínez Lázaro. Ele prevê que a América Latina sofrerá o impacto da recessão mundial em diversas áreas: exportação de manufaturados, remessas de trabalhadores que vivem no exterior, investimentos e financiamento. Alguns países enfrentarão mais dificuldades do que outros.

As exportações de matérias-primas serão afetadas pela queda dos preços resultante da redução da demanda mundial. Os exportadores de petróleo, inclusive a Venezuela, Peru e Equador, serão os mais afetados. As receitas com exportação do Chile vão cair − o país é um dos maiores exportadores de cobre e de molibdênio do mundo −, bem como os investimentos em novos projetos. Isto se deve à queda das receitas fiscais, observa Juan Carlos Guajardo, diretor executivo da CESCO, centro de pesquisas de cobre e mineração do Chile. Os países da América Central e do Caribe serão importadores líquidos de matérias-primas.

As exportações de manufaturados da região também deverão cair na esteira da queda da demanda por parte dos consumidores americanos. As remessas para a América Latina também serão reduzidas, atingindo em cheio os países latino-americanos com grande número de imigrantes trabalhando no exterior, como o México e Equador. Martínez Lázaro prevê ainda uma queda no investimento estrangeiro direto em 2008 e 2009. “Um número cada vez menor de empresas está se comprometendo com novos projetos, o que terá consequências em países como o Brasil e o México, que costumam atrair maior número de investidores. Contudo, o choque será sentido também em países como o Peru e o Chile.”

O financiamento na região é cada vez mais difícil e mais caro. No Brasil, por exemplo, Anita Kon, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ressalta que “o crédito é cada vez mais escasso, as taxas de juros continuarão a subir e a inflação vai se acelerar em virtude das condições mundiais em que se encontram as ofertas de certos produtos alimentícios e outras commodities, insuficientes para atender a demanda. O Brasil não tem poupança própria suficiente para financiar o desenvolvimento e a modernização de sua infraestrutura e de sua estrutura de produção. O país depende em grande medida de empréstimos tomados no exterior e do investimento estrangeiro direto”.

Os investimentos em infraestrutura em larga escala no setor público já diminuíram e continuarão a diminuir em 2009, especialmente pelo fato de as taxas de juros já se encontrarem muito altas não havendo condições de subirem mais, acrescenta Kon. Embora o Brasil conte com reservas superiores a US$ 200 bilhões, Kon diz que os financiamentos dependem atualmente do ataque especulativo de capitais de curto prazo contra o real, a moeda brasileira, o que deverá elevar de forma acentuada o preço do dólar americano. “É por esse motivo que o Brasil continua vulnerável”, diz Kon.

Enquanto isso, as finanças chilenas continuam relativamente sólidas, suas contas fiscais se acham em bom estado, conforme explica Guajardo, da CESCO. “O Chile aproveitou o período de preços altos [das matérias-primas] para reduzir sua dívida a patamares bem baixos, e também para acumular reservas em moeda estrangeira de mais de US$ 20 bilhões, o que lhe permitirá trabalhar com um orçamento maior em 2009.”

Com relação ao populismo em ebulição na região, Martínez Lázaro repete o que Ricardo Lagos, ex-presidente do Chile, disse certa vez: “Ser populista é fácil quando a carteira está cheia.” De acordo com Martínez Lázaro, “veremos se é fácil ser populista ou demagogo agora.” No seu entender, lideres como Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia, sentirão fortemente o impacto da crise. Qualquer possível deterioração nas condições sociais de outros países poderá resvalar também para um maior grau de populismo.

De modo geral, a América Latina está bem preparada para a crise. “Durante o período de crescimento, os países da região fizeram a lição macroeconômica, portanto 2009 não será um ano muito complicado”, conclui Martínez Lázaro, acrescentando que a região toda crescerá mais devagar, em torno de 2,5%. Embora o crescimento seja mais moroso, não se deve baixar a guarda. “É preciso adotar uma política macroeconômica bastante estável reduzindo ao mesmo tempo as desigualdades sociais e econômicas. Seria lamentável ver a região perder o rumo e descambar para o atraso.”

Índia: indicadores sombrios

Na Índia, a política oficial é de “otimismo cauteloso”. Em dezembro, o governo anunciou que foi de 7,8% a taxa do crescimento econômico no primeiro semestre do ano fiscal (abril a setembro de 2008). Trata-se, sem dúvida, de um número fabuloso num quadro mundial de recessão econômica. O governo prevê um crescimento de 7% para o novo ano, mas acredita que não atingirá as metas de déficit fiscal e de receitas previstas para este ano, principalmente por causa de medidas de incentivos que poderão chegar a 2% do PIB, que é de US$ 1,2 trilhão. O déficit fiscal poderá saltar para 5% do PIB ante os 3% previstos pelo governo. De modo geral, porém, o governo diz que a economia não deverá ser seriamente prejudicada, uma vez que os setores de serviços e de agricultura respondem por 55% e 18,5%, respectivamente, do PIB. Trata-se de setores menos afetados pelos ciclos de desaceleração econômica.

O otimismo oficial não encontra eco em outros círculos. Para a Nomura Securities, o crescimento deverá ser de 6,8%, caindo para 5,3% no período de 2009 a 2010. Rajiv Kumar, diretor e CEO do ICRIER, um grupo de estudos de Nova Délhi, acredita que a taxa de crescimento deverá cair bem mais, chegando a 3,9% ou menos no primeiro semestre do ano fiscal.

Outros indicadores sinalizam também tempos difíceis para a Índia, cuja economia vinha crescendo a todo vapor nos últimos anos. A produção industrial caiu 0,4% em outubro, tendo sido essa a primeira queda em 15 anos; as exportações caíram 12%, sendo que a última queda no setor datava de 2003. A arrecadação do imposto sobre consumo caiu 15% em novembro.

A economia indiana brilha no campo da inflação, que caiu para cerca de 6,6% em dezembro, numa sequência em ritmo descendente que perdura há nove meses. Abheek Barua, economista-chefe do Banco HDFC acredita que a inflação deva cair ainda mais, chegando a 2% por volta de março devido a quedas nos preços de produtos manufaturados e commodities. A. Vinay Kumar, professor de finanças do Instituto Indiano de Administração de Lucknow (IIML), diz que o abrandamento da inflação “é a parte mais animadora de toda essa história”.

Hari Rajagopalachari, diretor executivo da PricewaterhouseCoopers, tem outra opinião. “A inflação será alta por causa da injeção de grande quantidade de dinheiro na economia por meio de políticas monetárias”, diz. “A Índia é em grande parte uma economia com restrição de oferta. O crescimento da demanda na economia não significa necessariamente que haverá uma oferta similar de produtos e serviços.

Rajesh Chakrabarti, professor de finanças da Escola de Negócios Indiana (ISB), de Hyderabad, acredita que o desempenho das empresas indianas deverá cair. “Os incentivos dados pelo governo ajudarão um pouco, mas é inevitável que os lucros caiam, bem como as margens”, diz. “Ao mesmo tempo, não devemos esperar grandes prejuízos em boa parte das empresas mais importantes. Elas continuarão lucrativas, embora não tanto quanto no passado.”

As exportações − já seriamente prejudicadas − continuarão a ser penalizadas. “Nada vai melhorar antes de 2010 ou 2011, porque a economia mundial continuará em recessão ao longo de 2009”, observa Chakrabarti do ISB. Kumar acrescenta: “O setor exportador não apresenta bom desempenho devido à volatilidade da taxa de câmbio. A desvalorização da rúpia é bem-vinda, mas o aumento da volatilidade é motivo de preocupação.”

Contudo, a desvalorização da moeda indiana não deverá ser motivo de alegria por muito tempo. Os especialistas acreditam que seu valor deverá voltar ao patamar de 40 em relação ao dólar, depois de uma queda na cotação de mais de 50 nos últimos meses. Kumar prevê que a cotação da rúpia será de 40 ou 42 em relação ao dólar em 2009.

Chakrabarti diz que o dólar se valorizou em relação a praticamente todas as moedas do mundo porque os investidores buscam refúgio nos títulos do Tesouro americano. “No momento em que as pessoas acharem que a crise acabou, a situação se inverterá”, diz. “Isso poderá desvalorizar um pouco o dólar com a consequente valorização da rúpia, cuja cotação deverá chegar a 45 aproximadamente. Não creio que a moeda indiana deva cair para um valor abaixo do que se encontra atualmente.”

O Sensex − Índice de Sensibilidade da Bolsa de Valores de Bombaim − deverá subir ligeiramente este ano. “Acredita-se que o mercado deva permanecer em nível de preço horizontal (flat), entre 9.500 e 10.500, podendo até cair para menos de 9.000 antes das eleições gerais (marcadas para daqui a alguns meses). “Embora o Sensex possa subir um pouco, não creio que deva haver uma elevação sistemática. Se conseguirmos chegar a 12.000 em dezembro de 2009, podemos considerar tal desempenho excelente.”

China: contratempos à vista

A China, outro mercado emergente que antes atraía todas as atenções, também deverá passar por contratempos este ano. Há apenas um ano, o governo central do país referiu-se à inflação como sua principal preocupação econômica e anunciou que mudaria a política econômica do país para evitar o superaquecimento da economia. Agora, a esperança de que a estrela da economia chinesa continue a brilhar é menor, o que colocará à prova sua flexibilidade.

Um relatório divulgado em dezembro pela Universidade Popular da China, em Pequim, informava que o ciclo atual de desaceleração apontava para o colapso do modelo de crescimento do país baseado no consumo americano, na poupança dos chineses e em exportações de modo geral. Embora grande parte das estimativas de crescimento para o país seja de 8% em 2009, um relatório da Universidade Popular previa que a economia seria afetada pela queda na demanda mundial e pela menor capacidade de estímulos à economia por meio de investimentos. A estrutura de demanda e de oferta inelástica do país dificultará a reação dos chineses às mudanças econômicas.

Mesmo antes de atingida pela crise financeira de Wall Street, a economia chinesa, voltada para a exportação, estava sob pressão. A comunidade internacional pressionava a China para que elevasse a cotação da sua moeda. Além disso, milhares de fábricas no sul do país estavam fechando as portas devido às exigências de qualidade mais severas impostas aos produtos e à elevação dos padrões referentes à mão-de-obra e ao meio ambiente, sinal de que a economia passará por mudanças profundas.

Andie Xie, economista independente, diz que os volumosos estímulos do governo reunidos em um pacote de RMB 4 trilhões (US$ 586 bilhões), anunciado em novembro, trarão alguma melhora à economia na segunda metade de 2009. Contudo, o plano não trata de uma questão é crítica: a população chinesa não pode se dar ao luxo de comprar os bens que produz. Xie diz que uma estratégia eficaz para melhorar a economia consistiria em subsidiar o consumo e a compra de imóveis residenciais.

“É bem possível que a China amplie sua política nesse sentido e que a economia melhore no segundo semestre de 2009”, diz. “O mercado de ações talvez esteja em melhores condições até então, mas será apenas uma recuperação pontual, e não uma alta de fato. O importante é saber a que recorrer para dar respaldo ao nosso crescimento futuro.”

Em reunião sobre a economia realizada em dezembro pelo governo central em Pequim, os principais líderes do país estabeleceram como prioridade mudar o motor de crescimento da nação. Wu Jing Lian, economista muito respeitado e membro do Centro de Pesquisas do Conselho Estatal, disse aos jornalistas depois do evento que o modelo de crescimento chinês enfrentaria dificuldades no momento em que a economia americana passasse por problemas. “Isto nos leva a crer [...] que devemos nos concentrar em ajustes estruturais e na reforma do modelo de crescimento, porque só assim poderemos sobreviver.”

Em sua coluna na revista Cai Jing, Huang Yi Ping, economista-chefe do Citigroup Ásia Pacífico, disse que “o céu não cairá se o crescimento for menor de 8%”. Ele acrescentou que o governo chinês está determinado a manter o crescimento acima de 8% e poderá atingir esse objetivo.

Todavia, indagou a razão pela qual o pacote de estímulo do governo não tratou da questão do consumo. “Não podemos esperar que nossos problemas sejam sempre resolvidos com investimentos em infra-estrutura. Dez anos atrás, a China precisava de muita infra-estrutura, mas hoje a infra-estrutura que temos é até melhor do que a de muitos países desenvolvidos. A atenção deveria estar voltada para a vida das pessoas, para a qualidade do crescimento, tornando mais ricas as pessoas comuns.”

Alguns estudiosos propuseram sugestões detalhadas para melhorar a renda disponível da população.

Chen ZhiWu, professor de finanças da Escola de Negócios de Yale, e pesquisador visitante da Escola de Negócios de Chang Kong, em Pequim, disse que o governo deveria taxar as operações de drawback para subsidiar as famílias, indivíduos e agricultores de renda média baixa;; aumentar os investimentos em saúde, educação e seguridade social para que as pessoas se sintam mais seguras e dispostas a gastar suas economias; facilitar as negociações no mercado de direito de uso de terras rurais e tomar atitudes ousadas como, por exemplo, cortar impostos sobre empresas e indivíduos.

EUA: meses dolorosos à frente

O colapso dos EUA é diferente do que se verificou em outros países industrializados do mundo, porque os problemas começaram no setor financeiro e se espalharam por toda a economia, diz Guillén. No resto do mundo, os problemas na economia real − criados em grande parte pelos EUA − levaram à fragilização dos mercados financeiros, diz.

“Nos EUA, o objetivo para 2009 pode ser sintetizado pela seguinte pergunta: seremos capazes de pôr em ordem o setor financeiro? Infelizmente, não estou muito otimista a esse respeito”, diz.

Richard Marston, professor de finanças da Wharton, se diz chocado com o impacto da crise sobre as empresas e os mercados do setor financeiro. “É impressionante constatar que o Wachovia, o Washington Mutual e o Citi foram seriamente atingidos.” Marston diz que embora os bancos tenham sido socorridos, vai demorar muito até que comecem a emprestar outra vez. Além disso, a securitização vai ficar fora de cena um bom tempo. A impossibilidade de securitizar contrairá mais o crédito do que a recusa dos bancos em conceder empréstimos, diz Marston.

Com relação ao futuro, acrescenta Marston, outros choques − falências, calotes de obrigações e mais demissões − fustigarão a economia. Embora os mercados já tenham levado em conta eventos desse tipo, as pessoas ficarão chocadas no momento em que acontecerem, abalando mais ainda sua confiança. Marston ressalta que durante a recessão de 2001 − que não foi tão séria quanto a atual − a economia retomou o fôlego em novembro, mas as demissões em grande número prosseguiram até 2002. O pior, acrescenta, é que a demanda continua reprimida no mundo todo.”Esta é a primeira recessão mundial em muitos anos. O motor das recuperações anteriores − o consumidor americano − está ‘de molho’ e em compasso de espera.”

As empresas deixarão de investir até que a demanda ganhe fôlego novamente, diz Marston. “De onde virá a demanda?”, indaga ele, para quem não há uma resposta óbvia. “Portanto, a opinião consensual da imprensa de que a recuperação começará ‘em algum momento em 2009’ não passa de ilusão. Veremos.”

John Percival, professor adjunto de finanças da Wharton, diz que o país está diante de uma crise hipotecária que dificultará avanço da recuperação. Ele ressalta que embora as taxas de execuções de hipotecas já estejam altas, haverá ainda muitas outras hipotecas a executar nos próximos anos. Além disso, acrescenta, começarão a surgir calotes no mercado de hipotecas comerciais, e as instituições financeiras terão problemas com o crédito ao consumidor.

“É fácil dizer ‘também isso passará’. As pessoas falam de um 2009 difícil, e dizem que as coisas voltariam aos eixos em 2010”, diz Percival. “Não estou certo disso. Pode ser que demore bem mais.”

Allen diz que o desemprego continuará a aumentar e que a economia continuará fragilizada na medida em que consumidores e empresas deixem de gastar até que estejam convencidos de que os preços dos ativos pararam de cair. “A situação tem de se estabilizar”, diz Allen. “O problema atual é que as pessoas não sabem de quanto exatamente dispõem.” Os americanos não têm ideia de quanto valem suas carteiras de investimentos ou seus ativos em bens imóveis e, por isso, têm receio de gastar ou de fazer outros investimentos. “Acho que todos estão paralisados com medo de perder o emprego e o que lhes resta de sua riqueza. Há uma incerteza generalizada muito grande, e enquanto esse sentimento não começar a desaparecer, enquanto as coisas não cessarem de piorar, será impossível avançar.”

Percival diz que a taxa de consumo em anos recentes, alimentada pelo crédito fácil e pelo excesso de empréstimos, foi boa até demais para a economia americana. Futuramente, contudo, os consumidores voltarão aos shoppings, às concessionárias de automóveis e ao mercado de bens imóveis. “Por enquanto, o consumidor está sendo castigado. Não vejo, porém, nenhuma mudança drástica a longo prazo.”

Percival nota que o surgimento de barganhas em empresas de primeira linha é um sinal positivo no cenário sombrio da economia.”O preço que se paga por uma empresa dessas é ridículo, diz Percival. “Se você tiver alguma liquidez e um pouco de paciência e de coragem, vai encontrar sem dúvida alguma excelentes oportunidades de compra por aí.”

Allen prevê que as primeiras semanas de 2009 serão marcadas por uma onda de más notícias econômicas enquanto o novo governo procura construir os alicerces políticos de um pacote de estímulos em grande escala. “O governo terá de mostrar logo a que veio”, diz. “Teremos um janeiro e um fevereiro muito negativos, mas depois as coisas começarão a se estabilizar. Creio que teremos alguns meses bastante difíceis pela frente.”

Percival diz que embora o governo de Obama esteja sob pressão para que resolva o problema financeiro, ele corre o risco de criar outros problemas, aumentando basicamente a dívida pública e a inflação. Enquanto isso, acrescenta, a economia mundial continuará vulnerável aos choques dos preços do petróleo. Por fim, dada à severidade da crise econômica atual, os políticos verão que é quase impossível se colocar de forma decidida e determinada a favor do financiamento das lacunas existentes no Medicare e no Medicaid. “Isso terá de esperar um pouco mais, mas quanto mais esperarmos para resolver esse tipo de problema, maior ele ficará”, adverte Percival.

Percival diz que o plano de incentivo fiscal do novo governo poderá resultar em uma solução temporária. “O estímulo fiscal é extremamente necessário, para garantir que as coisas não piorem. No entanto, vejo com pessimismo o impacto de longo prazo de todos esses gastos”, diz. “O incentivo pode não desencadear a reação esperada. Precisamos de outra fonte de demanda − consumidores, exportações, investimentos?”

Allen diz que o socorro à indústria automobilística talvez adie por algum tempo uma reestruturação em grande escala que culminará com a erosão da segurança financeira dos trabalhadores e aposentados, principalmente no Estado de Michigan. “Não creio que seja possível escapar de algo parecido com a Grande Depressão.”

Ele nota que as taxas de juros dos EUA estão atingindo baixas históricas e uma onda de liquidez começa a penetrar os mercados financeiros através de títulos do Tesouro. Allen salienta que as taxas de juros não foram de grande ajuda para acelerar a recuperação do Japão nos anos 90, portanto ele não espera que ajudem muito na recuperação dos EUA também.

A Toyota é exemplo das dificuldades que atingem o Japão

O mundo todo se vê diante de uma crise financeira global que não poupa nem mesmo o Japão, a segunda maior economia do mundo. Allen, da Wharton, diz que o primeiro trimestre em que a Toyta acusa prejuízo mostra a gravidade dos problemas econômicos do Japão. Não só a Toyota e outras empresas japonesas enfrentam a desaceleração da demanda por parte da China e dos EUA, como também os investidores buscam um porto seguro no iene. À medida que a moeda japonesa se valoriza, os exportadores japoneses são ainda mais castigados pela economia mundial.

Além disso, o Japão está diante de incertezas políticas. Seu terceiro primeiro-ministro em três anos sofre com a falta de confiança, conforme revelam as pesquisas. “Os três últimos primeiros-ministros foram desastrosos”, diz Percival. “As poucas ações que tomaram foram estranhas e até mesmo esquisitas. Tudo indica que o primeiro-ministro vai mudar novamente, o que dificulta ainda mais a possibilidade de o Japão lidar com a situação.”

Allen ressalta que o futuro econômico do país está na berlinda. “Contudo, do lado positivo, eles vêm lidando com esse tipo de problema há 20 anos e conseguiram vencê-lo sem grandes prejuízos”, diz. “Portanto, essa é uma sociedade flexível, bem como sua economia. Será um período difícil, mas não catastrófico.”

De certo modo, o Japão tem um papel especial na atual crise econômica mundial em razão de sua experiência em situações de queda expressiva da economia e de luta pela sobrevivência nos anos 90 − conhecida como a “década perdida” do Japão. Seus gestores políticos tentaram diversos estímulos fiscais e monetários que poderão dar pistas sobre como as principais economias do mundo devem tratar os problemas atuais.

Adrian Tshoegl, professor assistente da Wharton, foi por seis anos macroeconomista de um banco de investimentos de Tóquio durante a ascensão e queda econômica do país. “Foi então que me dei conta de que a maior parte das previsões de eventos políticos e econômicos complexos não tinha valor algum”, diz Tshoegl. Ele diz ter tomado decisões boas e ruins quando trabalhava no Japão, mas crê que hoje, no sistema econômico global, complexo e interrelacionado que prevalece, é praticamente impossível predizer o verdadeiro impacto de uma ou outra política de ação.

“Podemos ter algumas ideias, trabalhar com vários prognósticos e com alguma informação sobre os riscos de tudo o que está por aí”, diz ele, “mas a verdade é que muita coisa pode vir não se sabe de onde e atingi-lo de repente”.

Quando os governos tentam pôr em ação políticas que respondam aos problemas econômicos, acrescenta, é difícil dizer o que acontecerá um pouco mais adiante no momento em que as políticas e as forças de mercado começam a interagir.

“O problema é que, muitas vezes, o melhor a fazer é simplesmente não fazer coisa alguma”, diz Tshoegl. “Contudo, nenhum político em uma situação como a atual jamais poderá se levantar e dizer: ‘Não temos a menor ideia do que fazer, portanto não faremos absolutamente nada por enquanto.’”


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